O que foi feito do texto órfão no cyberespaço? Uma tecla mal conduzida e... DELETE! Agora, pensando bem, será que há vida depois do erro fatal? Algum espírito de texto abortado vagando inconformado? Onde bailam minhas palavras censuradas? 2001, uma odisséia no espaço. Milhões de folhas sintéticas, prensadas, milimétricas, coloridas fosforescências, vinhetas (não “borboletas”) ao sabor do windows (não do “vento”). E a emoção via texto? E a troca inadvertida de teclas, a criação inusitada de palavras? Esdrúxulas natimortas essas? E os comandos todos, estudados e bem planejados? Deletou-se tudo (não “suicidou-se”)? E o coração que cantou a pedra? Recolheu-se a sua insignificância de mero órgão carnívoro, terror de incautos cérebros? ...



 Escrito por Leiluska às 00h17
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Sem dor, sem sabor....

 

Fico com os dedos dormentes de tanto teclar ao sabe-se lá,

Fico com a cabeça presa ao pescoço, plantada mesmo, sonhando besta com a perspectiva branca de uma tela sem imagem

Fico com as pernas inchadas sem posição que as satisfaça inutilizadas depois de tantas horas

Fico com o cheiro do que vivifico na persona mascarada em jogo de computador

Fico com os olhos vermelhos de tanto olhar sem enxergar nem ver, tirar sem pôr ou mexer sem desfazer

Fico com as idéias atormentadas, centrifugadas, ovos mexidos, tudo muito turbilhão, revolvendo, escolhendo, botando fora, quebrando, destruindo, nenhuma construção

Fico com os dentes definitivamente moldados nas gengivas opacas, todo o sangue se foi e, se existe algum néctar da vida, esse se chama “ar” – porque sei que respiro.

Fico preenchida sem um espacinho para brincar de esperança última que morre, sem nunca ser convidada pra ver o final da história.

Mas afinal nessa vida nunca haverá um final feliz pra nada.

Nem por isso é triste a vida. A vida apenas não é nada. Um ciclo que se fecha do nada a lugar nenhum. Pontas emendadas sem necessidade de nó. microvidas que se cruzam e se trançam, se enovelam e, por fim, sem mais o que fazer, se desmancham em pontas duplas de cabelo tipo palha. Tudo muito nada. Nada nunca tão tudo.

 Escrito por Leiluska às 23h47
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Quis, e conseguiu disfarçar, mais uma vez, os cabelos de palha com a fórmula mágica de um creme caríssimo. Sabe que vai durar pouco o efeito do creme, porque tudo vem se acostumando com ela, tudo conspirando para que ela envelheça, para que aceite a idade. Mas ela? Sabe que no dia em que isso acontecer será aceitar a sentença de morte. Enquanto mantiver a mente alerta aos primeiros sinais, sabe que terá tempo de rebater os amassos, rasgos e ranhuras que a natureza vem lhe fazendo. Também evita ler matérias de beleza que começam por mostrar os defeitos para depois dar o remédio: aprendeu que quando se sabe que algo feio existe, daí a pouco isso vai passar a existir para valer em sua vida. E nessa altura, meu filho, não se pode brincar com essas coisas sacrossantas. Hoje em dia vê o quanto estavam certas suas tias velhas e avós, bisavós, etc., quando diziam que não se pode evocar fantasmas. Não, não se pode. Então, não pronuncia palavras degradantes como “obesidade”, “manchas”, “verrugas”, “bigode chinês”, “papada” e “rugas”. E, por via das dúvidas, comprou um espelho na Feira de Espelhos do shopping que disfarça tudo e faz com que pareça ter vinte aninhos. Acreditando em sua nova aparência jovem, é claro que o corpo vai, sozinho, se restaurar. O tônico da eterna juventude. Dia desses, cismou de encarnar um shortinho preto de vinte anos atrás, bobagem, mas... E não é que coube direitinho dentro dele? Só a bunda que, bem, ficou meio reta, cabisbaixa. Mas que coube, coube. E se sentiu tão confortável que até se esqueceu de tirá-lo e saiu para a rua para comprar qualquer coisa. Chegou mesmo a ouvir um assobio, já pensou? E ficou toda prosa. O espelho milagroso!



 Escrito por Leiluska às 16h16
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Engoli o gosto inflado do pastel de vento - pobre lábio, mastigado pelo beijo mal dado. O nó da garganta apertado na gola alta do vestido vesgo de um bolso só... Me enfio em pacotes de butiques de shopping e me embalo numa fantasia qualquer, conversa pra boi dormir, vaca Vitória foi passear no brejo. E ainda me quero eu em pele e osso. A vida é pagar estacionamento, ficada, pedágio, andança, atropelo. E nada de pinturas em cabelo, que não se disfarça o tempo. Um coque feito na nuca é falta de cabeleireiro, o riso involuntário é a vingança de rugas extemporâneas. Uma nódoa brinca no pescoço em chama e quer saltar para a goela. A cara pálida se recorda de antigas crenças africanas, o negro que traz dentro de si o banzo que só ela sabe que é dela exclusivamente. A sandália cara e crua esparrama o pé chato de unhas tortas e encravadas. Dura é essa luta contra o tempo. Vaidade, idade, vida, vaia. Tudo brinca, tudo ri, tudo paga pelo espetáculo. Fotografia rápida, um clique colorido - e o momento se eterniza, relíquia do tempo aprisionado. O tempo é um adolescente que colhe frutos podres e recolhe bagaços. Acordar com a cara inchada e enrugada, mesmo sabendo disso. Tudo sem cura. Cirurgia plástica passou longe. Um dia encaro minha própria imagem que brinca atrás do reflexo dessa megera que a esconde, uma matrona com saia estampada, gola alta, coque severo e brincos gigantescos, a rainha da peruagem. Hoje estou precisando de maquiagem, de um reboco total. No guarda-roupa, mantenho religiosa meus velhos hábitos. Guardo papéis de recordações que só me vêm a cabeça quando vejo que não servem mais pra nada e os jogo no lixo. Memória de quê? A rotina prolonga o gesto, resume a ópera, esconde a sujeira debaixo de cerdas macias com gosto de menta. Estava eu brincando com o tempo? Mas se ele não sabe brincar! São 13 horas, 31 minutos e 13 segundos de um dia chuvoso de verão quentíssimo e abafado, menina na rua descalça, jeans nos joelhos, distraída, chupando picolé. No mais, tudo normal.

 Escrito por Leiluska às 02h24
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Busca

 

Boca cor-de-boca beijo perfumado de odor de rosas ou limonado, sabe-se lá... fragrâncias! Luxos. Que saudade de um acessório indispensável como o champanhe, refrichique de almas errantes. Ilha perdida, insuflada pelos arrulhos de águas distantes, cheiros do tempo. Tudo feito pra dar proteção, e ninguém inventou ainda um jato capaz de pulverizar a própria sombra - como assombra! A calça de quantos reais, o vapor que odoriza a pele tratada de cremes tantos, para poucos mesmo. Traço no ar uns roteiros para quando chegar a hora de me perpetuar para longe de minha pele, depois que finalmente me arrancarem cada pêlo. E ainda bem que inventaram jatos poderosos de perfumes implacáveis sem elo com nada nem ninguém. Cada dia um cheiro novo, troca de marca, para não deixar rastro. Nada de voltar a página, que a vida é calendário de rasgar o dia. Poucos espelhos. Espelhos, quando, de preferência mentirosos, daqueles que emagrecem e dão de brinde borrachinha poderosa de fotógrafo de Playboy. Plástica sem dor. A beleza em lugar da tristeza – tristeza aqui entendida como a feiúra do que é desmascarado, do que é apanhado em flagrante, como esta espinha sob toneladas de corretivo. Afinal haverá sempre um esqueleto sob a carne rija da mais bela mortal. Volta e meia, eis minha imagem feia, despudorada, surreal, Picaço vive. Nessa hora, eu sou eu, você é você, eu sou você, sou nós, sou vós... todas as pessoas verbalizando em uníssono sua vontade sobre-humana de superar essa coisa que vem e toma de assalto, essa coisa de sentir os grumos da parede na tez da sombra esguia. Essa coisa que avassala, que subjuga quem a pressente, que pulveriza os traços do que poderia ser uma imagem palpável, tesa, rija, morna. Essa coisa que aniquila, que desfigura, por real, por desumana, seta certeira que vem e acerta o fundo do vazio, é o que muitos chamam “poesia”. Será que convenho a mim? Afinal, meu passo sem-identidade não desbrava nem coloniza: segue rastros pisados de vários alguéns sem rostos, para mais adiante afundar-se no primeiro concreto em que tropeça. Na primeira esquina virada, um tapa estalado na cara vem em forma de uma palavra sonora, inodora, salubre e gasta: “não”.  



 Escrito por Leiluska às 22h28
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Junto com a chuva, canções de outros tempos desabam lágrimas, saudades ritmadas, linhas pontuais, adornos de vidro nas bordas dos galhos. Centrifugando a gororoba, carros em disparada cantam pneus emolientes num asfalto sem ternura. Um apartamento do terceiro andar vaporiza os vidros de fachada e parece que vai explodir a qualquer momento como um liquidificador desgovernado. Notas longínquas de um piano. Alguém tamborila dedos na borda de alguma mesa, dura madeira de anos. Passos percutem nos tacos da sala - talheres respondem alheios na cuba da pia. A cozinheira cantarola manias - o motor da geladeira liga ora...ora. Alguém abre a janela, e é de uma vez só. Depois fecha (ou é o contrário). O vento assobia na porta malfechada da sacada. Olhos piscam circunspectos. Coração retumba grave. Portas se trancam – ou se abrem, que afinal todos sabem: uma porta se fecha, sinal de que outra se abre. Alguém resmunga – ou ri. Tudo um coquetel de cantos, choros, gritos, triturado no vácuo. Pintos molhados, confortados pelo calor de uma chocadeira último tipo. Vidas penduradas num varal para secar, até que a chuva, enfim, desista. E são tantos os ritmos, tantas as modas antigas, tantos os mantras recolhidos, que não dá para prestar atenção em nada. Microscopicamente, o invisível poreja, viceja e prolifera, faça noite faça dia, faça calor faça frio, faça sol faça chuva. Sem que ninguém diga amém. O despercebido se faz nulo porque vive à custa do descaso. Quantas teias de aranha precisarão ser construídas? Quantos redemoinhos de poeira precisarão dançar na calada? Quantos ninhos de rato terão que caber num único quarto? Tanta vida nesses becos sujos. Vira e mexe, as coisas dão um basta, e começa a festa. Não tem jeito: dia mais, dia menos, vem outro terremoto e pulsa tudo mais uma vez. Não existe um campo pontilhado que, traço a traço, faça brotar lindas histórias com princípio, meio e fim. Tudo é fumaça, pó, algo bem volátil. Breve e definitivo, como um soco, cujo hematoma sobrevive na dor. Não adianta tecer crochê, emendar retalhos numa colcha king-size. Para que juntar cacos de vida em mosaico? O máximo que se consegue é chegar ao fim da obra, e daí? Que adianta contemplar lembranças costuradas num bordado? Nada mais zero. Mas a chuva. E a poeira amortecida em pleno meio da sala. Real, eterna, vivinha da silva. Na dela.

 Escrito por Leiluska às 10h57
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Bom dia!

 A sombra dentro do espelho se espanta com o fantasma da presença que transborda a sua frente. Presença de todas as ausências, de todos os prêmios não conquistados, de todos os troféus não abraçados, de todos os planos bem-esculpidos, que, sendo planos, planam. E planando são aviõezinhos de papel ao vento escuro de um banheiro vaporizado que se quer estufa justo hoje nesse chuvaral todo. Para completar, lágrimas e suores, xixi sem vontade, chuva de todo o fluido que lhe transborda. Derreter ali mesmo, de pé, em postura de atriz solitária que morreu há anos e ninguém lhe avisou. Isso sim, faz esquecer o que é, o que possui, quem subjuga, a que se resume esse presente rotineiro e repetitivo que parece vagão de trem em linha estrada de ferro Madeira-Mamoré, selva amazônica sussurrando brumas e tufões nos vagos entrelaçados de seringueiras douradas, no tempo em que a borracha era um pote de ouro escondido naquele chão. A mata canta, grita, reclama, urra mesmo no escuro, vista do fundo de um espelho opaco que tem o dom de tudo mostrar, já que não tem uma imagem a refletir. Todas as possibilidades têm salvo-conduto para invadir a intimidade perfumosa do eterno fracasso, da missão falida, fim. Fechar os olhos no escuro e caminhar entre frestas de pensamento, dizer bom-dia, inventando um sol prateado que dói os olhos só de olhar. E sentir muita dor, para depois namorar a harmonia de tanto desalinho. Escovar, depois, os dentes, ainda no escuro. Uma lambança!

 Escrito por Leiluska às 16h07
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Aperitivos

 

 

 

Aqui estou, no branco de todo começo. Sem o menor rubor, desprovida de qualquer filtro solar. Apenas um debrum de luz que deseja a todo custo queimar o campo seco, sem iluminar. Um raio. Tisnando cérebros contritos que querem porque querem caber em crânios malformados. Branca no preto. Tudo negro e cinza. Nenhuma esperança, porque esta tem que morrer antes da gente. Carne e osso. Impostos, CPF, celular, shoppings. Luz fluorescente na pele verde-musgo. Nunca amadurecer para não cair de podre um dia. Jaca madura não cai, despenca. Por isso, viva a poesia! Cantemos momentos. Devagar, com vagar, em fatias..



 Escrito por Leiluska às 15h31
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Veias telefônicas

  Luares empoçados no ondulante asfalto. Meus pés maltratam a película úmida do céu de refletores refletidos e seguem o rumo de cruéis botas salto agulha, salpicando engulhos da azia maldormida de ontem altas horas, insônia de chat, esse espanto da solidão –  ah,  quantos pilotam essa rotina! Um  labirinto mais que inseguro, e tudo o que procuro é seu reflexo, meu amor, no poço sem fundo esboçado na lagoa de chuva desses becos imundos. E nessa busca topo com ecos, sombras, alentos longínquos, futuros de pretéritos. Solidão etílica em grau máximo, unindo as pontas, a frio, a gélido, a hálito congélido, mãos destemperadas, ávidas, catando vagos que se debruçam em sussurros e assobios de vento da Esplanada. Um ventilador de teto soprando ladainhas. Tenho no alto um entrecruzado de linhas telefônicas –  uma só me bastaria, mas essa a quantas anda. Veias elétricas trançando e liquidando em nó o que poderia ser o mais desembolado novelo deste mundo. Mas não. Pulsando, impulsionando, batendo e martelando, vem em ondas telepáticas e me apossa. Depois me cospe em origâmis esfumados, me desconstrói. Faz arte do que me corrói. Eu, que sou uma traça, fico roendo projetos, alimentando-me de croquis. E meu amor, pura arte, segue dobrando com paciência cada borda que aponta, construindo obras de gênio às quatro e meia da manhã. Nesse tempo, sonho ou acordo à espera de outro sonho que me conte histórias. Sem tempo, sem hora, sem previsão, que isso nada tem a ver com ciclo menstrual, com febre ou ânsia. Um teatro de arena, alguém sereno com um menino no colo. Sorrindo... rindo... rindo... lindo! Até o acordar para nova busca.

 Escrito por Leiluska às 11h07
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